Ir para o conteúdo
Curiosidades

Origem dos estudos sobre a Infância

crianças com professora lendo para ilustrar texto sobre infância

O que chamamos de infância é, na verdade, uma criação sociocultural da modernidade. A subjetivação das fases do desenvolvimento humano e suas consequências políticas, econômica e culturais possui explicação histórica e, principalmente, epistemológica. Palavrinha difícil, mas que significa que uma forma de pensar a infância – uma epstemologia – foi criada, com conceitos, teorias e áreas específicas, como a pedagogia, por exemplo!

Antes de serem as crianças de hoje, os pequeninos já foram tratados como mini-adultos, ou como de fato eram: nada!

blog banner desconto em pós-graduação

Para você ter uma ideia do que estamos falando, na chamada Idade Média, a mortalidade infantil era muito alta, cerca de quatrocentas por mil, para cada mil crianças que nasciam, cerca de 400 morriam antes de completar um ano de idade. Para se entender o absurdo desse número, atualmente no Brasil, país com mortalidade infantil média para baixa, a taxa é de 12,4 por mil, na França a taxa é de 3,2 por mil. Hoje, um país com alta mortalidade infantil atinge números como 50 por mil. O que hoje para nós é algo preocupante, na idade média era “natural”. Quase metade das crianças morriam antes de completar um ano e se essa expectativa fosse ampliada até os sete anos de idade, a mortalidade de crianças nesse período era incrivelmente alta! Chocante, não é mesmo?!

Este é um dos aspectos que permite aos estudiosos dizerem que na Idade Média não existia infância e que faz com que afirmemos hoje que a infância é uma invenção. Mas ser uma invenção não significa que não é real!

Para você entender melhor este pensamento vamos fazer um rápido tour histórico pela Europa, entre os séculos XVI e XVIII. Um período (300 anos!) de grandes transformações sociais. Países como Portugal, Espanha, França e Inglaterra começam a colonizar outros territórios em busca de matéria-prima e mão-de-obra (não se esqueçam da terrível escravização dos povos africanos!), a necessidade dessa matéria-prima faz surgir novas demandas e novos postos de trabalho, as pessoas começam a sair do campo em direção à cidade, este êxodo rural inicia as grandes cidades, aglomerados populacionais desordenados.

Países como a Inglaterra e a França sofrem mudanças políticas e estruturais. No país da ‘queen Elizabeth’, o processo de produção é transformado pela Revolução Industrial, que mecaniza o trabalho tornando-o mais produtivo, o que gerou a necessidade de mais mão-de-obra e mais matéria-prima; no segundo país – o da, ainda, futura cidade das luzes – a aglomeração urbana potencializou as misérias e a fome, a população (comandada pela burguesia ascendente), insatisfeita com a falta de participação nas decisões políticas de uma monarquia absolutista organiza-se para instaurar um novo modelo de governo, baseado na participação popular e em princípios liberais (Revolução Francesa).

Ufa! Quanta coisa, não? Esse resumo básico de 300 anos foi para que pudéssemos entender que esses acontecimentos fizeram surgir um novo mundo, em que aquelas criaturas que nasciam e se desenvolviam não podiam mais ser ignoradas, principalmente diante o franco processo de urbanização e industrialização, que fez surgir uma nova realidade, o desenvolvimento técnico e científico com vistas à maior produtividade econômica, a ascensão do racionalismo e do antropocentrismo, e, claro!, a diminuição da mortalidade infantil em virtude do replanejamento urbano e das condições de saneamento da cidade, com acesso à higiene e à saúde.

Estas transformações podem ser percebidas com o surgimento da educação infantil, que a princípio era tarefa da família – limitada às famílias nobres e burguesas que podiam pagar por preceptores (nome pomposo para para professores particulares).  Isso significa que as crianças pobres, ou seja, a maioria, ainda não conheciam a infância, ao contrário, os filhos e filhas dos proletários eram submetidos às condições degradantes do trabalho nas fábricas. A infância era um privilégio para poucas crianças!

Enfim, mesmo que limitado aos filhos da elite, a criança passa a ser vista sob uma outra perspectiva: a do vir a ser, aquela que pode ser educada – ainda que vista como tábula rasa. A partir do século XIX os princípios de cidadania ampliam-se e a criança ganha um novo papel social! Habemus infância!

Autoria: Claudia R. Benedetti

Revisão: Verônica Belfi Roncetti Paulino

Conheça nossas faculdades